Leandro Alberione Batista da Costa *

Após a escravidão e a exploração vivenciada na Revolução Industrial, o século XX nasceu repleto de promessas, lutas e utopias para o mundo do trabalho. Muitas obras descreveram o sonho de uma sociedade de bem-estar social, na qual as máquinas libertariam a humanidade do trabalho e da alienação[i], de modo que as pessoas poderiam se ocupar das questões essenciais de sua vida, da contemplação da beleza da arte e da natureza, experienciar sabores, conhecer culturas, celebrar a amizade e aprofundar os relacionamentos[ii].

Em vista desse sonho, bem como da proteção e promoção da dignidade dos trabalhadores, pessoas, igrejas, associações, cooperativas, empresários, sindicatos, partidos, ao longo de todo o século XX, lutaram e se uniram pelo reconhecimento dos direitos trabalhistas. Inspirados em São João Bosco, Madre Cabrini, Bispo von Ketteler, Adolf Kolping, Frederico Ozanan, Pe. Ibiapina, Pe. Leopoldo Brentano e tantos outros “santos sociais”, muitos católicos refletiram, se organizaram, participaram nas lutas, envolveram-se na política, na economia, criaram organizações e buscaram construir novas relações colaborativas entre capital e trabalho. Destacam-se a atuação da Ação Católica, da Ação Católica Operária e da JOC (Juventude Operária Católica) e seu fundador, Cardeal Josef Cardijn, bem como de intelectuais e políticos como Jackson de Figueiredo, Alceu Amoroso Lima, Gustavo Corção, Sobral Pinto, Dom Helder Câmara, Cesarino Junior, André Franco Montoro, Queiroz Filho, Pe. Fernando Bastos de Ávila, SJ; Frei Luís Maria Sartori e tantos outros heróis e heroínas anônimos que viveram e disseminaram tais ideais, introjetando o ensino social da Igreja inclusive na Constituição Federal e na legislação trabalhista brasileira.

No início do século XXI, em uma sociedade extremamente tecnológica, constatamos que muitos daqueles sonhos não se concretizaram. Temos uma imensa concentração de renda, a precarização das relações trabalhistas (“uberização”) e o risco de uma grande parte da população ser excluída do mercado de trabalho pela automação e o analfabetismo digital. Ademais, a democracia está em crise e há um crescimento em todo o mundo de ideais autoritários, da instrumentalização política da religião e de um liberalismo econômico extremo. Vivemos a época da pós-verdade, onde é difícil compreender o real, em meio ao bombardeio de informações e das fake news. A própria ciência, ou é desacreditada, ou elevada à categoria de religião dogmática. Cada grupo se fecha em pequenas caixas ideológicas, somente acessíveis aos iniciados desse gnosticismo e pelagianismo[iii] atuais, repletos de teorias conspiratórias, conforme nos alerta o Papa Francisco na Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai”. Por fim, nossos estilos de vida, modelos de produção e de consumo podem causar uma catástrofe ecológica, em virtude da mudança climática, nos termos da Carta Encíclica “Laudato Si”.

Uma pandemia, no entanto, desnudou a realidade. Parou a humanidade e nos fez olhar uns para os outros e conviver mais em família. Descobrimos a importância dos trabalhadores domésticos, informais, da área da saúde, entregadores, mototaxistas, moradores de rua, cientistas, coveiros, lixeiros, policiais, lideranças políticas. De repente, nossos modelos de pensamento não se encaixavam na realidade e, diante do falso dilema entre a vida e a economia, precisávamos de novas soluções. Não podíamos nos agarrar às “seguranças” da antiga realidade. Apesar da lamentável situação atual, a crise causada pelo coronavírus pode ser vista como uma oportunidade para recomeçarmos a partir de novas bases, novas relações e novas visões sobre o ser humano, a sociedade e a natureza.

Todavia, por onde começar? Segundo São João Paulo II, na Encíclica “Laborem exercens”, o trabalho humano é a chave para a questão social. Pelo trabalho, cada ser humano manifesta sua subjetividade, realiza-se a si mesmo e colabora com Deus e com a humanidade, suscitando energias sociais e comunitárias que alimentam o bem comum, promovendo o desenvolvimento integral de todo o gênero humano. A pandemia destacou ainda mais, o que disse o Papa: “O fundamento para determinar o valor do trabalho humano não é em primeiro lugar o gênero do trabalho que se realiza, mas o fato de aquele que o executa ser uma pessoa. Além disso, normalmente, atrás dessa pessoa há uma família.  Portanto, é necessário reconhecer o direito de todos ao trabalho digno, pois os seres humanos não podem ser tratadas como meros instrumentos de produção, coisificados, escravizados, explorados, desprotegidos e descartados. Como remédio, o Santo Padre conclamava à solidariedade[iv]: “Para se realizar a justiça social nas diversas partes do mundo, nos vários países e nas relações entre eles, é preciso que haja sempre novos movimentos de solidariedade dos homens do trabalho e de solidariedade com os homens do trabalho. Uma tal solidariedade deverá fazer sentir a sua presença onde a exijam a degradação social do homem-sujeito do trabalho, a exploração dos trabalhadores e as zonas crescentes de miséria e mesmo de fome. A Igreja acha-se vivamente empenhada nesta causa, porque a considera como sua missão, seu serviço e como uma comprovação da sua fidelidade a Cristo, para assim ser verdadeiramente a ‘Igreja dos pobres’. E os ‘pobres’ aparecem sob variados aspectos; aparecem em diversos lugares e em diferentes momentos; aparecem, em muitos casos, como um resultado da violação da dignidade do trabalho humano: e isso, quer porque as possibilidades do trabalho humano são limitadas — e há a chaga do desemprego — quer porque são depreciados o valor do mesmo trabalho e os direitos que dele derivam, especialmente o direito ao justo salário e à segurança da pessoa do trabalhador e da sua família”.

Destarte, precisamos conhecer, anunciar, celebrar e servir o “Evangelho do trabalho”, presentes não só no ensino social da Igreja, mas na história de tantos movimentos e pessoas que o concretizaram na história.

Estamos em um país de maioria cristã católica, os valores acima mencionados se fazem presente no nosso cotidiano e inspiram nossa ação? As decisões econômicas, políticas, administrativas e legislativas, têm visado à proteção da dignidade dos trabalhadores e trabalhadoras?

Ora, “uma fé que não se torna cultura é uma fé não de modo pleno acolhida, não inteiramente pensada e nem com fidelidade vivida”[v]. O Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica “Evangelii nuntiandi” profeticamente nos exorta a, pelo influxo da Boa Nova, transformar a humanidade a partir de dentro, convertendo “ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios”. Trata-se, insiste o Papa, de “modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação”.

 Assim, nossa tarefa como Igreja é […] fazer com que sejam sempre tido presentes a dignidade e os direitos dos homens do trabalho, estigmatizar as situações em que são violados e contribuir para orientar as aludidas mutações, para que se torne realidade um progresso autêntico do homem e da sociedade” (João Paulo II, Laborem exercens).

Nesse sentido, o Papa Francisco apresenta-nos um grande desafio nos números 124 a 129 da Laudato Si: “[…] a realidade social do mundo atual exige que, acima dos limitados interesses das empresas e duma discutível racionalidade econômica, se continue a perseguir como prioritário o objetivo do acesso ao trabalho para todos”.  

Amartya Sen, na obra “Desenvolvimento como liberdade”, ao refletir sobre pobreza e desigualdade, afirma que “[…] o desemprego não é meramente uma deficiência de renda que pode ser compensada por transferências do Estado (a um custo fiscal que pode ser, ele próprio, um ônus gravíssimo); é também uma fonte de efeitos desabilitadores muito abrangentes sobre a liberdade, a iniciativa e as habilidades dos indivíduos. Entre os múltiplos efeitos, o desemprego contribui para a exclusão social de alguns grupos e acarreta a perda da autonomia, de autoconfiança e de saúde física e psicológica”.

Muitas pessoas perderam e perderão o emprego, não só em razão dos impactos da pandemia, mas pelas próprias mutações do mercado de trabalho.

Como profissionais à serviço do Reino, não podemos ver e passar adiante. Somos chamados a ver, ter compaixão e cuidar:

  1. O primeiro passo é o cuidado assistencial e imediato daqueles que estão próximos;
  2. Depois, unindo a competência técnica de todos, promover formas de economia solidária, cursos de alfabetização, capacitação profissional e empreendedora (Exemplo: cursinhos de preparação para concursos públicos);
  3. estabelecer redes de diálogo, comunhão, participação e solidariedade, não só entre nossos grupos, mas com outras expressões da Igreja e da sociedade civil, valorizando os sindicatos e as organizações profissionais;
  4. estudar novos modelos empresariais, como a Economia de Comunhão, e o cooperativismo;
  5. articular políticas públicas em prol do bem comum, como a programa de renda básica da cidadania, redução da jornada de trabalho, a reforma agrária, a proteção da agricultura familiar, construção de casas populares, o acesso ao saneamento básico, etc. e;
  6. Sensibilizar a comunidade internacional para o perdão das dívidas dos países em desenvolvimento e o compromisso de cooperação para a superação da fome e da miséria no mundo.

Quais outras ações poderíamos realizar? Convidamos você e seu grupo a partilhar as provocações, dúvidas e inspirações suscitadas a partir da leitura.

Que, inspirados por São José Operário e por todos que lutam e lutaram pela dignidade dos trabalhadores, mantenhamos viva a esperança e a utopia da Civilização do Amor, onde todos sejam respeitados em sua dignidade humana e tenham acesso às condições necessárias ao seu pleno desenvolvimento.

Leandro Alberione Batista da Costa * é casado, pai de duas filhas; ex-membro da CNP, do GPP Ilha Solteira e do Projeto Amazônia; membro do GO NS Fátima, de Santa Fé do Sul/SP; graduado em Direito, com especialização em Direitos Humanos, escrevente técnico judiciário do TJSP. E-mail de contato do autor: labc2000@hotmail.com

[i] É necessário reconduzir o conceito de alienação à perspectiva cristã, reconhecendo-a como a inversão dos meios pelos fins: quando o homem não reconhece o valor e a grandeza da pessoa em si próprio e no outro, de facto priva-se da possibilidade de usufruir da própria humanidade e de entrar na relação de solidariedade e de comunhão com os outros homens para a qual Deus o criou. Com efeito, é mediante o livre dom de si que o homem se torna autenticamente ele próprio, e este dom é possível graças à essencial “capacidade de transcendência” da pessoa humana. O homem não se pode doar a um projeto somente humano da realidade, nem a um ideal abstrato ou a falsas utopias. Ele, enquanto pessoa, consegue doar-se a uma outra pessoa ou outras pessoas e, enfim, a Deus, que é o autor do seu ser e o único que pode acolher plenamente o seu dom. Alienado é o homem que recusa transcender-se a si próprio e viver a experiência do dom de si e da formação de uma autêntica comunidade humana, orientada para o seu destino último, que é Deus. Alienada é a sociedade que, nas suas formas de organização social, de produção e de consumo, torna mais difícil a realização deste dom e a constituição dessa solidariedade inter-humana.

http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_01051991_centesimus-annus.html

[ii] O sociólogo italiano Domenico de Masi, em sua obra “Criatividade e grupos criativos”, ao refletir sobre o chamado de “ócio criativo”, pretende que, à medida que os homens fossem substituídos pelas máquinas, o período de trabalho seja reduzido e este se transforme em jogo com características de criatividade, estudo, curiosidade, destreza, tentativa, pesquisa, invenção e paixão. De sorte que não haveria distinção entre repouso e trabalho. Como defensores desta visão cita Russel, Hesse, Morand, Lafargue e Keynes. Para estes últimos, a jornada semanal deveria ser de quinze horas em turnos de três horas.

[iii] O gnosticismo era uma doutrina dualista, onde o mundo material é associado ao mal, e diz respeito à uma suposta salvação por um conhecimento secreto, revelado aos iniciados, e que, segundo o Papa Francisco, supõe “uma fé fechada no subjetivismo, onde apenas interessa uma determinada experiência ou uma série de raciocínios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em última instância, a pessoa fica enclausurada na imanência da sua própria razão ou dos seus sentimentos”. Esse conhecimento, no entanto, não conduz à um compromisso com a realidade, uma vez que ela é má e leva a uma atitude dualista: cidadão de bem, cidadão do mal; isso/esse é de Deus, aquilo/aquele não é. Francisco afirma que pretendem abarcar racionalmente toda a fé e reduzir o ensinamento de Jesus a uma lógica fria e dura que procura dominar tudo. Já o pelagianismo era a heresia segundo a qual o ser humano se salva pela sua vontade e não pela graça de Deus. Deste modo, bastaria a liberdade humana para se obter a salvação. Tal mentalidade se reflete no fechamento à transcendência, no relativismo ético, no laicismo, no indiferentismo religioso, na busca exagerada de eficácia, do próprio bem-estar e do sucesso, no legalismo, no fundamentalismo, no individualismo e no farisaísmo.  Na Evangelii Gaudium, o Papa Francisco apresenta o pelagianismo como uma das expressões do mundanismo espiritual: “94. (…). A outra maneira é o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado. É uma suposta segurança doutrinal ou disciplinar que dá lugar a um elitismo narcisista e autoritário, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso à graça, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. São manifestações dum imanentismo antropocêntrico. Não é possível imaginar que, destas formas desvirtuadas do cristianismo, possa brotar um autêntico dinamismo evangelizador’.

Para aprofundar estes temas, confira-se em

http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html .

Recomendo também a leitura de:

 https://www.vidapastoral.com.br/artigos/espiritualidade/a-santidade-no-mundo-de-hoje-das-distorcoes-ao-autentico-chamado-de-deus/, de https://sites.google.com/view/sbgdicionariodefilosofia/gnosticismo e de https://facasc.emnuvens.com.br/ret/article/viewFile/73/66

[iv] https://pt.wikipedia.org/wiki/Solidarno%C5%9B%C4%87

[v] Para uma pastoral da cultura. http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/cultr/documents/rc_pc_pc-cultr_doc_03061999_pastoral_po.html

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