Quatro pessoas diferentes segurando balões de quadrinhos

por Leandro Alberione Batista da Costa[i]

“Recordamo-nos que ninguém se salva sozinho, que só é possível salvar-nos juntos[ii].”

No primeiro dia da quaresma, ouvimos a firme exortação do apóstolo Paulo: “Somos embaixadores de Cristo, deixai-vos reconciliar com Deus, não recebam a graça de Deus em vão, pois agora é o tempo favorável, agora é o tempo da salvação!”[iii]

A palavra reconciliação, do latim “reconciliare”, é formada pelo prefixo “re” (outra vez) e o verbo “conciliare”, vinculado ao substantivo “concilium” (grupo de pessoas reunido, assembleia, reunião, união)[iv]. Isto significa que todo o caminho quaresmal em direção à Páscoa nos conduz a um processo de reconciliação com Deus, consigo, com o outro e com a criação. O que nos recorda também que a palavra religião tem sua origem na palavra latina “religare”, ou seja, busca reunir o que antes estava ligado e se rompeu.

Contudo, para que a reconciliação e a religação aconteçam é necessária uma decisão de sair de si, ir ao encontro do outro, aproximar-se e dialogar. Isto porque se cada pessoa ou grupo se fechar em si mesmo, no seu gueto, na sua ideologia, na sua visão de mundo, o tecido social se fragmentará e seremos inconciliáveis, incapazes de dialogar, de ver o bem do outro e no outro e, ainda que diferentes, buscarmos juntos o bem comum.

CRISTO É A NOSSA PAZ

Esse esgarçamento do tecido social não é a vontade do Deus Uno e Trino que nos criou à sua imagem e semelhança, isto é, para vivermos a comunhão na diversidade. Este mesmo Deus, após a desobediência do ser humano, sem nenhum mérito desse, vem tantas vezes ao seu encontro para fazer aliança, até o absurdo de se fazer um de nós, dialogar conosco e padecer na cruz pelo perdão dos nossos pecados. Como diz São Paulo na Carta aos Efésios[v]: “Agora, porém, graças a Jesus Cristo, vós que antes estáveis longe, vos tornastes presentes, pelo sangue de Cristo. Porque é Ele a nossa paz, Ele que de dois povos fez um só, destruindo o muro de inimizade que os separava, abolindo na própria carne a Lei, os preceitos e as prescrições. Desse modo, Ele queria fazer em si mesmo dos dois povos uma única humanidade nova pelo restabelecimento da paz, e reconciliá-los ambos com Deus, reunidos num só corpo pela virtude da cruz, aniquilando nela a inimizade. Veio para anunciar a paz a vós que estáveis longe, e a paz também àqueles que estavam perto; porquanto é por Ele que ambos temos acesso junto ao Pai num mesmo espírito. Consequentemente, já não sois hóspedes nem peregrinos, mas sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus. É nele que todo edifício, harmo­nicamente disposto, se levanta até formar um templo santo no Senhor. É nele que também vós outros entrais conjuntamente, pelo Espírito, na estrutura do edifício que se torna a habitação de Deus.”

Papa Francisco comenta de forma primorosa esse texto, na Evangelii Gaudium, a partir do princípio: “A unidade prevalece sobre o conflito: “229. Este critério evangélico recorda-nos que Cristo tudo unificou em Si: céu e terra, Deus e homem, tempo e eternidade, carne e espírito, pessoa e sociedade. O sinal distintivo desta unidade e reconciliação de tudo n’Ele é a paz. Cristo “é a nossa paz” (Ef 2, 14). O anúncio do Evangelho começa sempre com a saudação de paz; e a paz coroa e cimenta em cada momento as relações entre os discípulos. A paz é possível, porque o Senhor venceu o mundo e sua permanente conflitualidade, “pacificando pelo sangue da sua cruz” (Col 1, 20). Entretanto, se examinarmos a fundo estes textos bíblicos, descobriremos que o primeiro âmbito onde somos chamados a conquistar esta pacificação nas diferenças é a própria interioridade, a própria vida sempre ameaçada pela dispersão dialética. Com corações despedaçados em milhares de fragmentos, será difícil construir uma verdadeira paz social. 230. O anúncio de paz não é a proclamação duma paz negociada, mas a convicção de que a unidade do Espírito harmoniza todas as diversidades. Supera qualquer conflito numa nova e promissora síntese. A diversidade é bela, quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação até selar uma espécie de pacto cultural que faça surgir uma “diversidade reconciliada”, como justamente ensinaram os Bispos da República Democrática do Congo: “A diversidade das nossas etnias é uma riqueza. (…) Só com a unidade, a conversão dos corações e a reconciliação é que poderemos fazer avançar o nosso país”[vi]. Seria diferente no Brasil?

Ora, se o próprio Deus, saiu de si e se abaixou para vir ao nosso encontro, apesar de sermos pecadores, como podemos nos fechar, nos isolar, e mais, nos agredir, usar de violência uns para com os outros, ser indiferentes às dores e aos clamores dos que sofrem e semear a divisão, o conflito e o cancelamento do outro?

Como podemos ser contrários ao ecumenismo proposto na “Unitatis Redintegratio”[vii], do Concilio Vaticano II, na “Ut Unum sint”[viii], de São João Paulo II, e pelo Papa Francisco, no Jubileu de Ouro da RCC[ix], se o próprio Jesus, nosso Senhor, em sua oração sacerdotal, pediu ao Pai para que os que Nele cressem fossem um como Ele e o Pai, como condição para que o mundo cresse?

Em um mundo tão individualista, violento, polarizado, e dividido em contínuas discórdias, não deveriam ser os cristãos e cristãs um sinal de unidade e paz?

ESPIRITUALIDADE DA COMUNHÃO

Para tanto, São João Paulo II em seu projeto para a Igreja no Terceiro Milênio sonhava que esta fosse “a casa a escola da comunhão”. E, antes de uma ação, propunha uma espiritualidade da comunhão, que “significa em primeiro lugar ter o olhar do coração voltado para o mistério da Trindade, que habita em nós e cuja luz há de ser percebida também no rosto dos irmãos que estão ao nosso redor. Espiritualidade da comunhão significa também a capacidade de sentir o irmão de fé na unidade profunda do Corpo místico, isto é, como “um que faz parte de mim”, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar remédio às suas necessidades, para oferecer-lhe uma verdadeira e profunda amizade. Espiritualidade da comunhão é ainda a capacidade de ver, antes de mais nada, o que há de positivo no outro, para acolhê-lo e valorizá-lo como dom de Deus: um ”dom para mim”, como o é para o irmão que diretamente o recebeu. Por fim, espiritualidade da comunhão é saber “criar espaço” para o irmão, levando “os fardos uns dos outros” (Gal 6,2) e rejeitando as tentações egoístas que sempre nos insidiam e geram competição, arrivismo, suspeitas, ciúmes. Não haja ilusões! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servirão os instrumentos exteriores da comunhão. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, máscaras de comunhão, do que como vias para a sua expressão e crescimento”[x].

COMUNHÃO E COMUNICAÇÃO

Em nossos grupos, o primeiro pilar é a vida em comunidade, a qual depende da qualidade de nossa comunicação. Nesse sentido, Elkin Arango afirma que a comunhão é um processo que parte do silêncio, do compartilhamento de frases feitas, clichês e notícias, passando pela partilha dos sentimentos até chegar ao nível em que “cada pessoa expressa como vê a si mesma, não só através de sentimentos e emoções, mas especialmente através de valores que a orientam, de motivações profundas, de atitudes de vida; quando é manifestado o que cada um quer de si mesmo, do mundo e da vida; quando é comunicado como é visto o outro, como ele é amado e o que pretendem juntos como projeto que os faz sujeitos da história e não objetos. Esta expressão não é só verbal ou simbólica, mas sim de atitudes comprometidas de vida diante dos outros e para os outros[xi]. A tentação é vivermos eternamente na superficialidade comunicativa, temendo arrancar máscaras, abandonar papéis, partilhar nossa vulnerabilidade pessoal e a acolher empaticamente aqueles que se revelam a nós[xii].

Todavia, essa comunhão e comunicação autênticos devem extrapolar os limites de nossas famílias e comunidades para alcançar a sociedade. Isso porque o diálogo, tema da Campanha da Fraternidade desse ano, está no nosso DNA[xiii]!

Sabemos que os problemas de uma sociedade plural são complexos e que não conseguiremos encontrar soluções sozinhos, por isso é necessário dialogar com outras pessoas, familiares, colegas de trabalho, refugiados, migrantes, trabalhadores, cientistas, artistas, políticos, empresários, moradores de rua, sem-teto e sem-terra, desempregados, ateus e agnósticos, etc.; e grupos, expressões eclesiais, novas comunidades, movimentos, pastorais, organismos, igrejas cristãs, religiões, órgãos de classe, conselhos, conferências, Câmaras Municipais, assembleias, clubes de serviço, sindicatos, partidos, associações, fundações, etc., e se fazer presente nas ágoras modernas[xiv].

O Papa Francisco, na Carta Encíclica “Fratelli Tutti”, esmiúça esse tema de forma magistral! Vale a pena lê-la e refleti-la em nossos grupos ou construirmos formações e encontros de partilha a seu respeito.

Abordando a ilusão de comunicação e a agressividade encontradas nas redes sociais, Francisco declara que[xv]: “O funcionamento de muitas plataformas acaba frequentemente por favorecer o encontro entre pessoas com as mesmas ideias, dificultando o confronto entre as diferenças. Estes circuitos fechados facilitam a divulgação de informações e notícias falsas, fomentando preconceitos e ódios. Deve-se reconhecer que os fanatismos, que induzem a destruir os outros, são protagonizados também por pessoas religiosas, sem excluir os cristãos, que podem “fazer parte de redes de violência verbal através da internet e vários fóruns ou espaços de intercâmbio digital. Mesmo nos media católicos, é possível ultrapassar os limites, tolerando-se a difamação e a calúnia e parecendo excluir qualquer ética e respeito pela fama alheia”. Agindo assim, qual contribuição se dá para a fraternidade que o Pai comum nos propõe?”

CONFLITOS

Olhando nossas redes sociais percebemos quase um cisma sócio-político-religioso no Brasil. Diante de tanta agressividade e polarização, somos tentados a fugir do diálogo. Contudo, o Papa também nos estimula à busca da verdadeira sabedoria, fundada na cultura do encontro, e a manter viva a esperança: “226. O conflito não pode ser ignorado ou dissimulado; deve ser aceitado. Mas, se ficamos encurralados nele, perdemos a perspectiva, os horizontes reduzem-se e a própria realidade fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura conflitual, perdemos o sentido da unidade profunda da realidade. 227. Perante o conflito, alguns limitam-se a olhá-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as mãos para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projetam nas instituições as suas próprias confusões e insatisfações e, assim, a unidade torna-se impossível. Mas há uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: é aceitar suportar o conflito, resolvê-lo e transformá-lo no elo de ligação de um novo processo. “Felizes os pacificadores” (Mt 5, 9)! 228. Deste modo, torna-se possível desenvolver uma comunhão nas diferenças, que pode ser facilitada só por pessoas magnânimas que têm a coragem de ultrapassar a superfície conflitual e consideram os outros na sua dignidade mais profunda. Por isso, é necessário postular um princípio que é indispensável para construir a amizade social: a unidade é superior ao conflito. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, torna-se assim um estilo de construção da história, um âmbito vital no qual os conflitos, as tensões e os opostos podem alcançar uma unidade multifacetada que gera nova vida. Não é apostar no sincretismo ou na absorção de um no outro, mas na resolução num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste”[xvi].

QUATRO PASSOS DO DIÁLOGO

Portanto, o instrumento para que a comunhão ocorra, não é a fuga dos conflitos, mas aprender a resolvê-los por meio do diálogo fundado na dignidade, na liberdade, na caridade e na verdade.

O primeiro passo é o reconhecimento que toda pessoa humana possui Dignidade e não pode ser tratada como um objeto, rotulada, manipulada ou instrumentalizada para consecução de quaisquer fins. Por detrás de qualquer bandeira, ideologia, história, partido, condição social, raça, credo, gênero, há um ser humano que deve ser respeitado em sua dignidade pessoal. Recordando que o que se faz a um ser humano afeta toda a humanidade.

O segundo passo é o respeito à Liberdade e à responsabilidade de cada pessoa única e irrepetível de “realizar a própria vocação pessoal; buscar a verdade e professar as próprias ideias religiosas, culturais e políticas; manifestar as próprias opiniões; decidir o próprio estado de vida e, na medida do possível, o próprio trabalho; assumir iniciativas de caráter econômico, social e político”[xvii]. Ainda que consideremos nossa visão como a correta, não podemos impô-la aos outros, mas somente apresentar argumentos e o testemunho de vida para ajuda-los a, por si mesmos, buscarem o conhecimento da verdade. Nesse sentido, a Declaração “Dignitatis Humanae” ensina que “todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros, dentro dos devidos limites. […] De harmonia com própria dignidade, todos os homens, que são pessoas dotadas de razão e de vontade livre e por isso mesmo com responsabilidade pessoal, são levados pela própria natureza e também moralmente a procurar a verdade, antes de mais a que diz respeito à religião. Têm também a obrigação de aderir à verdade conhecida e de ordenar toda a sua vida segundo as suas exigências. Ora, os homens não podem satisfazer a esta obrigação de modo conforme com a própria natureza, a não ser que gozem ao mesmo tempo de liberdade psicológica e imunidade de coação externa”[xviii].

O terceiro passo é a busca conjunta e sincera da Verdade. Está na moda proclamar que alguém lacrou, destruiu, arrasou, calou, humilhou, o outro. Se é esse o objetivo, não há diálogo possível. Na Fratelli Tutti, Francisco declara que há verdades objetivas e que o relativismo não é solução, pelo contrário, suscita numerosos riscos para os direitos humanos fundamentais. Assim, conclama a “nos exercitar em desmascarar as várias modalidades de manipulação, deformação e ocultamento da verdade nas esferas pública e privada”. Prossegue insistindo que: “Numa sociedade pluralista, o diálogo é o caminho mais adequado para se chegar a reconhecer aquilo que sempre deve ser afirmado e respeitado e que ultrapassa o consenso ocasional. Falamos de um diálogo que precisa de ser enriquecido e iluminado por razões, por argumentos racionais, por uma variedade de perspectivas, por contribuições de diversos conhecimentos e pontos de vista, e que não exclui a convicção de que é possível chegar a algumas verdades fundamentais que devem e deverão ser sempre defendidas”. Bento XVI já proclamava que “a verdade é “logos” que cria “diá-logos” e, consequentemente, comunicação e comunhão. A verdade, fazendo sair os homens das opiniões e sensações subjetivas, permite-lhes ultrapassar determinações culturais e históricas para se encontrarem na avaliação do valor e substância das coisas. A verdade abre e une as inteligências no lógos do amor: tal é o anúncio e o testemunho cristão da caridade”[xix].

O último critério e talvez o mais importante é a Caridade, que busca o bem e o cuidado do outro, que é “paciente, bondosa, não tem inveja; nem é orgulhosa,  arrogante ou escandalosa; que não busca os seus próprios interesses, não se irrita, não guarda rancor, não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta[xx].”
Santo Agostinho afirmava: “Ama e faze o que quiseres. Se te calas, cala-te movido pelo amor; se falas em tom alto, fala por amor; se corriges, corriges com amor; se perdoas, perdoa por amor. Tem no fundo do coração a raiz do amor: dessa raiz não pode sair se não o bem[xxi]”. Outra expressão atribuída ao autor de “Confissões” é: “No essencial, a unidade; na dúvida, a liberdade; em tudo, a caridade.” Papa Francisco, na Fratelli Tutti, admoesta-nos a centrar a atenção no outro, considerando-o um só comigo mesmo, procurando gratuitamente o seu bem: “92. A estatura espiritual duma vida humana é medida pelo amor, que constitui «o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana». Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força. Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar (cf. 1 Cor 13, 1-13). 93. Procurando especificar em que consiste a experiência de amar, que Deus torna possível com a sua graça, São Tomás de Aquino explicava-a como um movimento que centra a atenção no outro “considerando-o como um só comigo mesmo”. A atenção afetiva prestada ao outro provoca uma orientação que leva a procurar o seu bem gratuitamente. Tudo isto parte duma estima, duma apreciação que, em última análise, é o que está por detrás da palavra “caridade”: o ser amado é “caro” para mim, ou seja, é estimado como de grande valor. E “do amor, pelo qual uma pessoa me agrada, depende que lhe dê algo grátis”.94. Sendo assim o amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam duma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é, impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando esta forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos”. Recorde-se que Cristo nos manda amar, inclusive, os inimigos.

Em meio à tempestade que tem sido a pandemia do Coronavírus, esse diálogo é ainda mais necessário para construir soluções solidárias e cooperativas e, assim, uma realidade mais justa, menos desigual e violenta: “78. É possível começar por baixo e caso a caso, lutar pelo mais concreto e local, até ao último ângulo da pátria e do mundo, com o mesmo cuidado que o viandante da Samaria teve por cada chaga do ferido. Procuremos os outros e ocupemo-nos da realidade que nos compete, sem temer a dor nem a impotência, porque naquela está todo o bem que Deus semeou no coração do ser humano. As dificuldades que parecem enormes são a oportunidade para crescer, e não a desculpa para a tristeza inerte que favorece a sujeição. Mas não o façamos sozinhos, individualmente. O samaritano procurou um estalajadeiro que pudesse cuidar daquele homem, como nós estamos chamados a convidar outros e a encontrar-nos num “nós” mais forte do que a soma de pequenas individualidades; lembremo-nos de que “o todo é mais do que a parte, sendo também mais do que a simples soma delas”. Renunciemos à mesquinhez e ao ressentimento de particularismos estéreis, de contraposições sem fim. Deixemos de ocultar a dor das perdas e assumamos os nossos delitos, desmazelos e mentiras. A reconciliação reparadora ressuscitar-nos-á, fazendo perder o medo a nós mesmos e aos outros. 79. O samaritano do caminho partiu sem esperar reconhecimentos nem obrigados. A dedicação ao serviço era a grande satisfação diante do seu Deus e na própria vida e, consequentemente, um dever. Todos temos uma responsabilidade pelo ferido que é o nosso povo e todos os povos da terra. Cuidemos da fragilidade de cada homem, cada mulher, cada criança e cada idoso, com a mesma atitude solidária e solícita, a mesma atitude de proximidade do bom samaritano”.

Paulo autointitulado embaixador de Cristo. Embaixador é aquele que representa sua Pátria em outra nação, promovendo relações de amizade, cooperação e dando a conhecer a cultura e os valores de seu povo[xxii]. Pelo Batismo, recebemos a graça de ser embaixadores daquele que é a nossa Paz e derrubou o muro da inimizade. Nossa missão é promover a reconciliação, a cultura e os valores do Reino de Deus, no concreto da existência.

Ao ir ao Iraque e a tantas periferias existenciais, Papa Francisco nos dá o exemplo e nos arrasta a não recebermos a graça em vão, mas a manifestarmos que hoje é o dia favorável, dialogando com as pessoas e grupos desse mundo plural, em busca do bem comum e de uma diversidade reconciliada.

PARA UM DEDO DE PROSA

  1. A espiritualidade que tenho vivido tem me levado à comunhão e à unidade interior ou à divisão e à fragmentação?
  2. Quais são as dificuldades que encontro em mim mesmo quando estou diante de uma situação conflituosa?
  3. Em nossa realidade local, quais atitudes têm sido tomadas para promover o ecumenismo e o diálogo inter-religioso?
  4. Que atitudes podemos tomar para, nesse momento de pandemia, promover o diálogo e buscar soluções para os problemas de nossa comunidade?

[i] Casado, pai de duas filhas, formado em Direito, Especialista em Direitos Humanos, membro do Grupo de Oração NS de Fátima, Santa Fé do Sul, e da Equipe da Campanha da Fraternidade da Diocese de Jales/SP. E-mail: labc2000@hotmail.com , Twitter: @fenaprofissao , Instagram: @labc2000 . Toda sugestão, crítica, dúvida, contribuição, são bem vindas!

[ii] CARTA ENCÍCLICA FRATELLI TUTTI. Obtido em http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html . Acesso em 08/03/2021.

[iii] 2 Carta de São Paulo aos Coríntios 5, 20-6,2. Obtido em https://liturgiadiaria.cnbb.org.br/app/user/user/UserView.php?ano=2021&mes=2&dia=17. Acesso em 08/03/2021.

[iv] Obtido em http://etimologias.dechile.net/?reconciliar. Acesso em 07/03/2021.

[v] Efésios 2, 13-22. Bíblia da Ave Maria.

[vi] Obtido em http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html . Acesso em 09/03/2021.

[vii] N. 4: “Por «movimento ecuménico» entendem-se as atividades e iniciativas, que são suscitadas e ordenadas, segundo as várias necessidades da Igreja e oportunidades dos tempos, no sentido de favorecer a unidade dos cristãos. Tais são: primeiro, todos os esforços para eliminar palavras, juízos e ações que, segundo a equidade e a verdade, não correspondem à condição dos irmãos separados e, por isso, tornam mais difíceis as relações com eles; depois, o «diálogo» estabelecido entre peritos competentes, em reuniões de cristãos das diversas Igrejas em Comunidades, organizadas em espírito religioso, em que cada qual explica mais profundamente a doutrina da sua Comunhão e apresenta com clareza as suas características. Com este diálogo, todos adquirem um conhecimento mais verdadeiro e um apreço mais justo da doutrina e da vida de cada Comunhão. Então estas Comunhões conseguem também uma mais ampla colaboração em certas obrigações que a consciência cristã exige em vista do bem comum. E onde for possível, reúnem-se em oração unânime. Enfim, todos examinam a sua fidelidade à vontade de Cristo acerca da Igreja e, na medida da necessidade, levam vigorosamente por diante o trabalho de renovação e de reforma”. http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decree_19641121_unitatis-redintegratio_po.html . Acesso em 09/03/2021.

[viii] “28. Se a oração é a « alma » da renovação ecuménica e do anseio pela unidade, sobre ela se baseia e dela recebe apoio tudo aquilo que o Concílio define « diálogo » . Essa definição não é certamente independente do pensamento personalista actual. A atitude de « diálogo » situa-se ao nível da natureza da pessoa e da sua dignidade. Do ponto de vista filosófico, uma tal posição une-se à verdade cristã sobre o homem expressa pelo Concílio: ele « é a única criatura sobre a terra a ser querida por Deus por si mesma »; por isso, o homem não pode « encontrar-se plenamente a não ser no sincero dom de si mesmo ». 51 O diálogo é passagem obrigatória do caminho a percorrer para a auto-realização do homem, tanto do indivíduo como de cada comunidade humana. Embora do conceito de « diálogo » pareça emergir em primeiro plano o aspecto cognoscitivo (dia-logos), todo o diálogo contém em si uma dimensão global, existencial. Por isso, ele compromete o indivíduo humano na sua totalidade; o diálogo entre as comunidades empenha, de modo particular, a subjectividade de cada uma delas. Esta verdade sobre o diálogo, expressa com tanta profundidade pelo Papa Paulo VI na Encíclica Ecclesiam suam, 52 foi também assumida pela doutrina e pela prática ecuménica do Concílio. O diálogo não é apenas uma troca de ideias; de algum modo, é sempre um « intercâmbio de dons ». (…) 99. Quando afirmo que para mim, Bispo de Roma, o empenhamento ecuménico constitui « uma das prioridades pastorais » do meu pontificado, 157 é por ter no pensamento o grave obstáculo que a divisão representa para o anúncio do Evangelho. Uma Comunidade cristã que crê em Cristo e deseja, com o ardor do Evangelho, a salvação da humanidade, não pode de forma alguma fechar-se ao apelo do Espírito que orienta todos os cristãos para a unidade plena e visível. Trata-se de um dos imperativos da caridade que deve ser acolhido sem hesitações. O ecumenismo não é apenas uma questão interna das Comunidades cristãs, mas diz respeito ao amor que Deus, em Cristo Jesus, destina ao conjunto da humanidade; e obstaculizar este amor é uma ofensa a Ele e ao seu desígnio de reunir todos em Cristo. O Papa Paulo VI escrevia ao Patriarca Ecuménico Atenágoras I: « Possa o Espírito Santo guiar-nos no caminho da reconciliação, para que a unidade das nossas Igrejas se torne um sinal cada vez mais luminoso de esperança e de conforto para toda a humanidade ». http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_25051995_ut-unum-sint.html . Acesso em 09/03/2021.

[ix] Discurso do Papa Francisco na celebração do Jubileu de Ouro da RCC: “Estamos aqui reunidos crentes provenientes de 120 países do mundo, para celebrar a obra soberana do Espírito Santo na Igreja, que teve início há 50 anos e deu vida a… uma instituição? A uma organização? Não. A uma corrente de graça, uma corrente de graça da Renovação Carismática Católica. Obra que nasceu… católica? Não. Nasceu ecuménica! Nasceu ecuménica porque é o Espírito Santo quem cria a unidade e é o mesmo Espírito Santo que deu a inspiração para que fosse assim! É importante ler as obras do cardeal Suenens sobre isto: é muito importante! http://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2017/june/documents/papa-francesco_20170603_veglia-pentecoste.html Acesso em 09/03/2021. Cumpre destacar o discurso do Cardeal Farrel no nascimento do Charis: “6) Ele (Papa Francisco) espera que nós dêmos um testemunho de ecumenismo espiritual, como algo devido aos nossos irmãos e irmãs em outras Igrejas e comunidades eclesiais. No Circo Máximo, o Papa Francisco identificou a Renovação Carismática Católica como um instrumento de escolha da Igreja em seu esforço ecumênico. É sinal da providência de Deus que a mesma renovação da experiência de Pentecostes tenha surgido em todas as Igrejas e Comunidades eclesiais. Existe, portanto, uma experiência espiritual compartilhada através da Renovação Carismática para os Cristãos de todas as denominações. A Renovação Carismática é providencialmente colocada como uma experiência que une os cristãos: nasceu como algo ecumênico. No amadurecimento de sua identidade eclesial, a Renovação Carismática Católica é chamada pelo Papa Francisco a participar   da sua   tarefa, como o sucessor de Pedro, de reconciliar as Igrejas Cristãs e Comunidades, ‘para que todos possam ser um’. Na mesma noite, o Frei Cantalamessa nos lembrou que esse caminho ecumênico de amor poderia começar imediatamente: cada pessoa pode fazer isso agora. Ao mesmo tempo, ele continuou, a experiência espiritual compartilhada dos Cristãos em Renovação Carismática fornece um contexto no qual irmãos e irmãs que compartilham o mesmo Espírito podem se esforçar para “falar a verdade em amor” sobre as questões que nos separam, e desta maneira esforçarem-se pela unidade cristã. Claramente, com o Papa Francisco envolvendo a Renovação Carismática Católica neste esforço ecumênico institucional, há um ônus no CHARIS para promover, discernir e ajudar a moldar como a Renovação participa disto. Como dizia já São João Paulo II em 1981: “Estejamos confiantes de que, se nos rendermos à obra da genuína renovação no Espírito, este mesmo Espírito Santo trará à luz a estratégia do ecumenismo e virá à realidade a nossa esperança” que todos sejam verdadeiramente um em Cristo”. Obtido em: https://www.cernebrasil.com/2019/06/07/discurso-do-cardeal-kevin-farrell-ao-charis-nascimento-do-charis-e-importancia-para-a-rcc/ Acesso em 09/03/2021.

[x] N.43. Obtido em http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/apost_letters/2001/documents/hf_jp-ii_apl_20010106_novo-millennio-ineunte.html. Acesso em 09/03/2021

[xi] ARANGO, Elkin, SI. “O caminho comunitário: crescimento em comunhão”. Aparecida/SP: Editora Santuário. 10 ed. 1996, p.23.

[xii] Recomendo a leitura de duas obras de John Powell, SJ: “Arrancar máscaras, abandonar papéis: a comunicação pessoal em 25 passos”, da Edições Loyola, e “Porque tenho medo de lhe dizer quem sou”, da Editora Crescer.

[xiii] Confira o item 4.4 do Texto-base: https://www.profissionaisdoreino.com/wp-content/uploads/2020/02/1485612978TextobaseProfissionaisdoReino.pdf Acesso em 09/03/2021.

[xiv] O Papa São João XXIII na “Pacem in terris” estimula os fiéis leigos e leigas a participarem ativamente da vida pública, colaborando inclusive com toda pessoa de boa vontade: “Dever de participação à vida pública 145. Ainda uma vez exortamos nossos filhos ao dever de participarem ativamente da vida pública e de contribuírem para a obtenção do bem comum de todo o gênero humano e da própria comunidade política, e de esforçarem-se portanto, à luz da fé cristã e com a força do amor, para que as instituições de finalidade econômica, social, cultural e política sejam tais que não criem obstáculos, mas antes facilitem às pessoas o próprio melhoramento, tanto na vida natural como na sobrenatural. Competência científica, capacidade técnica, perícia profissional 146. Para impregnarem de retas normas e princípios cristãos uma civilização, não basta gozar da luz da fé e arder no desejo do bem. É necessário para tanto inserir-se nas suas instituições e trabalhá-las eficientemente por dentro. 147. A cultura atual salienta-se sobretudo por sua índole científica e técnica. Assim ninguém pode penetrar nas suas instituições se não for cientificamente competente, tecnicamente capaz, profissionalmente perito. Relações dos católicos com os não-católicos no campo econômico-social político 156. As linhas doutrinais aqui traçadas brotam da própria natureza das coisas e, às mais das vezes, pertencem à esfera do direito natural. A aplicação delas oferece, por conseguinte, aos católicos vasto campo de colaboração tanto com cristãos separados desta sé apostólica, como com pessoas sem nenhuma fé cristã, nas quais, no entanto, está presente a luz da razão e operante a honradez natural. “Em tais circunstâncias, procedam com atenção os católicos, de modo a serem coerentes consigo mesmos e não descerem a compromissos em matéria de religião e de moral. Mas, ao mesmo tempo, mostrem espírito de compreensão desinteresse e disposição a colaborar lealmente na consecução de objetivos bons por natureza, ou que, pelo menos, se possam encaminhar para o bem”. Obtido em: http://www.vatican.va/content/john-xxiii/pt/encyclicals/documents/hf_j-xxiii_enc_11041963_pacem.html . Acesso em 10/03/2021.

[xv] Números 42 a 46. http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html . Acesso em 09/03/2021.

[xvi] Obtido em http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html . Acesso em 09/03/2021.

[xvii] Obtido em http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html#A%20liberdade . Acesso em 09/03/2021

[xviii] Obtido em  http://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_decl_19651207_dignitatis-humanae_po.html . Acesso em 09/03/2021.

[xix] Obtido em http://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate.html . Acesso em 09/03/2021.

[xx] I Carta de São Paulo aos Coríntios 13, 4-7. Obtido em https://www.bibliacatolica.com.br/biblia-ave-maria/i-corintios/13/ . Acesso em 10/03/2021.

[xxi] Obtido em https://www.irmasagostinianas.com.br/oh-santo-pai-agostinho-mostra-nos-o-caminho-que-nos-levara-ao-ceu . Acesso em 15/03/2021.

[xxii] Obtido em http://antigo.itamaraty.gov.br/pt-BR/perguntas-frequentes-artigos/19363-o-ministerio-das-relacoes-exteriores-e-as-carreiras-do-servico-exterior#dois . Acesso em 15/03/2021.

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