por Leandro Alberione Batista da Costa[i]

No mês de novembro, nosso olhar se dirige à eternidade, à Cristo Rei e aos pobres e nosso coração se enche de esperança, o que nos motiva a exercer nossa vocação de leigos e leigas, como profissionais “do Reino”. Pergunta-se: Qual reino? De quem? Qual os valores e a cultura desse reino?

 O Reino de Deus é Jesus

Jesus inicia seu ministério proclamando que o Reino de Deus está próximo e presente em nosso meio. Para o Mestre, o Reino é tão importante que deve ser a prioridade de nossa vida. O Nazareno promete a participação nele aos que nascem de novo da água e do Espírito, àqueles que colocam em prática a vontade do Pai, que tem um coração de pobre e aos perseguidos por causa da justiça. No centro da oração do Pai Nosso, nos ensina a pedir: “venha a nós o vosso Reino”.

Uma das sínteses mais belas sobre o que é o Reino foi apresentada por São João Paulo II no segundo capítulo da Encíclica “A missão do Redentor[ii]”.  O Papa ensina que o Reinado de Deus, realizado por Cristo e em Cristo, anunciado a todos os povos pela Igreja, se cumpre quando cremos e acolhemos o mistério do Pai e do Seu amor, que se manifesta e oferece em Jesus, por meio do Espírito. Ele afirma que Jesus não só anuncia o Reino, mas Ele próprio é a Boa Nova: “Cristo não só anunciou o Reino, mas, n’Ele, o próprio Reino se tornou presente e plenamente se realizou. E não apenas através das Suas palavras e obras: “o Reino manifesta-se principalmente na própria pessoa de Cristo, Filho de Deus e Filho do Homem, que veio ‘para servir e dar a Sua vida em resgate por muitos’ (Mc 10, 45)“. O Reino de Deus não é um conceito, uma doutrina, um programa sujeito a livre elaboração, mas é, acima de tudo, uma Pessoa que tem o nome e o rosto de Jesus de Nazaré, imagem do Deus invisível. Se separarmos o Reino, de Jesus, ficaremos sem o Reino de Deus por Ele pregado, acabando por se distorcer quer o sentido do Reino, que corre o risco de se transformar numa meta puramente humana ou ideológica, quer a identidade de Cristo, que deixa de aparecer como o Senhor, a Quem tudo se deve submeter (cf. 1 Cor 15, 27)”[iii].

É Cristo que reina em mim

O primeiro passo, portanto, é acolhermos a boa nova pela fé, tornando-nos discípulos-missionários de Jesus, a ponto de podermos dizer como São Paulo: “Fui crucificado com Cristo. Assim, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim. A vida que agora vivo no corpo, vivo-a pela fé no filho de Deus, que me amou e se entregou por mim” (Gálatas 2, 19-20). Permitindo que Ele reine em nós e obedecendo sua voz, somos transformados e passamos a ter os mesmos sentimentos e a mente de Cristo.

Civilização do Amor

Contudo, alerta-nos o Papa Francisco, o Reino também possui uma dimensão social: “Ao lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho não consiste só numa relação pessoal com Deus. E a nossa resposta de amor também não deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados, o que poderia constituir uma “caridade por receita”, uma série de ações destinadas apenas a tranquilizar a própria consciência. A proposta é o Reino de Deus (cf. Lc 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre nós, a vida social será um espaço de fraternidade, de justiça, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o anúncio como a experiência cristã tendem a provocar consequências sociais. (…) O Reino, que se antecipa e cresce entre nós, abrange tudo (…) Sabemos que “a evangelização não seria completa, se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, dos homens”. É o critério da universalidade, próprio da dinâmica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os homens se salvem; e o seu plano de salvação consiste em “submeter tudo a Cristo, reunindo n’Ele o que há no céu e na terra” (Ef 1, 10). O mandato é: “Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15), porque toda “a criação se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus” (Rm 8, 19). Toda a criação significa também todos os aspectos da vida humana, de tal modo que “a missão do anúncio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destinação universal. Seu mandato de caridade alcança todas as dimensões da existência, todas as pessoas, todos os ambientes da convivência e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho”. A verdadeira esperança cristã, que procura o Reino escatológico, gera sempre história”[iv].

Nesse sentido, para São João Paulo II, “o reino pretende transformar as relações entre os homens, e realiza-se progressivamente à medida que estes aprendem a amar, perdoar, a servir-se mutuamente. Jesus retoma toda a Lei, centrando-a no mandamento do amor (cf. Mt 22, 34-40; Lc 10, 25-28). (…) Por isso a natureza do Reino é a comunhão de todos os seres humanos entre si e com Deus”.

Esta passagem traz à mente a beleza e a profundidade do chamado à vivência da fraternidade e da amizade social, feito pelo Papa Francisco, na Encíclica Fratelli Tutti: “A estatura espiritual duma vida humana é medida pelo amor, que constitui “o critério para a decisão definitiva sobre o valor ou a inutilidade duma vida humana”. Todavia há crentes que pensam que a sua grandeza está na imposição das suas ideologias aos outros, ou na defesa violenta da verdade, ou em grandes demonstrações de força. Todos nós, crentes, devemos reconhecer isto: em primeiro lugar está o amor, o amor nunca deve ser colocado em risco, o maior perigo é não amar (cf. 1 Cor 13, 1-13). Procurando especificar em que consiste a experiência de amar, que Deus torna possível com a sua graça, São Tomás de Aquino explicava-a como um movimento que centra a atenção no outro “considerando-o como um só comigo mesmo”. A atenção afetiva prestada ao outro provoca uma orientação que leva a procurar o seu bem gratuitamente. Tudo isto parte duma estima, duma apreciação que, em última análise, é o que está por detrás da palavra “caridade”: o ser amado é “caro” para mim, ou seja, é estimado como de grande valor. E “do amor, pelo qual uma pessoa me agrada, depende que lhe dê algo grátis”. Sendo assim o amor implica algo mais do que uma série de ações benéficas. As ações derivam duma união que propende cada vez mais para o outro, considerando-o precioso, digno, aprazível e bom, independentemente das aparências físicas ou morais. O amor ao outro por ser quem é, impele-nos a procurar o melhor para a sua vida. Só cultivando esta forma de nos relacionarmos é que tornaremos possível aquela amizade social que não exclui ninguém e a fraternidade aberta a todos. Enfim, o amor coloca-nos em tensão para a comunhão universal. Ninguém amadurece nem alcança a sua plenitude, isolando-se. Pela sua própria dinâmica, o amor exige uma progressiva abertura, maior capacidade de acolher os outros, numa aventura sem fim, que faz convergir todas as periferias rumo a um sentido pleno de mútua pertença. Disse-nos Jesus: “Vós sois todos irmãos” (Mt 23, 8)”[v].

 

A mim o fizeste (Mateus 25, 31-46)

Jesus, Rei e Senhor, nos escolheu, nos capacitou e nos enviou-nos para amar, não somente com palavras, mas por atos e em verdade. A passagem do evangelista Mateus mencionada acima destaca o papel das obras de misericórdia por ocasião do juízo. No entanto, o que deve nos impelir é o amor, não o medo.

Nesse mês, teremos oportunidades para exercer o amor de forma concreta: pelo voto consciente[vi], pela participação na Jornada Mundial dos Pobres[vii], pelo Dia dos Cristãos Leigos e Leigas[viii] e pela Festa de Cristo, Rei do Universo.

Que estes eventos sejam um mover da graça em nossas vidas e nos ajudem a viver ao longo de toda a existência e, especialmente nestes tempos tão difíceis, a opção preferencial pelos pobres.

Como recorda São João Paulo II, “Jesus aproximou-se sobretudo daqueles que eram marginalizados pela sociedade, dando-lhes preferência, ao anunciar a Boa Nova. No início do Seu ministério, proclama: “Fui enviado a anunciar a Boa Nova aos pobres” (cf. Lc 4, 18). As vítimas da rejeição e do desprezo, declara: “bem-aventurados vós, os pobres” (Lc 6, 20), fazendo-lhes, inclusive, sentir e viver já uma experiência de libertação, estando com eles, partilhando a mesma mesa (cf. Lc 5, 30; 15, 2), tratando-os como iguais e amigos (cf. Lc 7, 34), procurando que se sentissem amados por Deus, e revelando deste modo imensa ternura pelos necessitados e pecadores (cf. Lc 15, 1-32)”[ix].

O Peregrino do amor ainda nos faz refletir sobre o que é ser profissional do Reino ao proclamar: “Trabalhar pelo Reino significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino, que está presente na história humana e a transforma. Construir o Reino quer dizer trabalhar para a libertação do mal, sob todas as suas formas. Em resumo, o Reino de Deus é a manifestação e a atuação do Seu desígnio de salvação, em toda a sua plenitude”[x].

Manter viva a esperança

Contemplando todo o mal que nos cerca e que encontramos dentro de nós, corremos o risco de desesperar e cairmos no desânimo, no cinismo, no niilismo e no pessimismo estéril.

Por esta razão, termino invocando as palavras de Bento XVI, na Encíclica “Salvos na esperança”: “O homem, na sucessão dos dias, tem muitas esperanças – menores ou maiores – distintas nos diversos períodos da sua vida. Às vezes pode parecer que uma destas esperanças o satisfaça totalmente, sem ter necessidade de outras. Na juventude, pode ser a esperança do grande e fagueiro amor; a esperança de certa posição na profissão, deste ou daquele sucesso determinante para o resto da vida. Mas quando estas esperanças se realizam, resulta com clareza que na realidade, isso não era a totalidade. Torna-se evidente que o homem necessita de uma esperança que vá mais além. Vê-se que só algo de infinito lhe pode bastar, algo que será sempre mais do que aquilo que ele alguma vez possa alcançar. Neste sentido, a época moderna desenvolveu a esperança da instauração de um mundo perfeito que, graças aos conhecimentos da ciência e a uma política cientificamente fundada, parecia tornar-se realizável. Assim, a esperança bíblica do reino de Deus foi substituída pela esperança do reino do homem, pela esperança de um mundo melhor que seria o verdadeiro “reino de Deus”. Esta parecia finalmente a esperança grande e realista de que o homem necessita. Estava em condições de mobilizar – por um certo tempo – todas as energias do homem; o grande objetivo parecia merecedor de todo o esforço. Mas, com o passar do tempo fica claro que esta esperança escapa sempre para mais longe. Primeiro deram-se conta de que esta era talvez uma esperança para os homens de amanhã, mas não uma esperança para mim. E, embora o elemento “para todos” faça parte da grande esperança – com efeito, não posso ser feliz contra e sem os demais – o certo é que uma esperança que não me diga respeito a mim pessoalmente não é sequer uma verdadeira esperança. E tornou-se evidente que esta era uma esperança contra a liberdade, porque a situação das realidades humanas depende em cada geração novamente da livre decisão dos homens que dela fazem parte. Se esta liberdade, por causa das condições e das estruturas, lhes fosse tirada, o mundo, em última análise, não seria bom, porque um mundo sem liberdade não é de forma alguma um mundo bom. Deste modo, apesar de ser necessário um contínuo esforço pelo melhoramento do mundo, o mundo melhor de amanhã não pode ser o conteúdo próprio e suficiente da nossa esperança. E, sempre a este respeito, pergunta-se: Quando é ‘melhor’ o mundo? O que é que o torna bom? Com qual critério se pode avaliar o seu ser bom? E por quais caminhos se pode alcançar esta “bondade”? Mais ainda: precisamos das esperanças – menores ou maiores – que, dia após dia, nos mantêm a caminho. Mas, sem a grande esperança que deve superar tudo o resto, aquelas não bastam. Esta grande esperança só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir. Precisamente o ser gratificado com um dom faz parte da esperança. Deus é o fundamento da esperança – não um deus qualquer, mas aquele Deus que possui um rosto humano e que nos amou até ao fim: cada indivíduo e a humanidade no seu conjunto. O seu reino não é um além imaginário, colocado num futuro que nunca mais chega; o seu reino está presente onde Ele é amado e onde o seu amor nos alcança. Somente o seu amor nos dá a possibilidade de perseverar com toda a sobriedade dia após dia, sem perder o ardor da esperança, num mundo que, por sua natureza, é imperfeito. E, ao mesmo tempo, o seu amor é para nós a garantia de que existe aquilo que intuímos só vagamente e, contudo, no íntimo esperamos: a vida que é ‘verdadeiramente’ vida”.

Como o Pe. Zezinho, em sua Balada por um Reino, coloquemos vida na nossa fé, continuemos arrastando a rede e procurando o Reinado de Deus em nós, no mundo, sabendo que Ele virá e está no meio de nós.

Balada Por Um Reino[xi]


Por causa de um certo reino, estradas eu caminhei

Buscando, sem ter sossego, o reino que eu vislumbrei

Brilhava a Estrela Dalva e eu quase sem dormir,

buscando este certo reino e a lembrança dele a me perseguir!



Por causa daquele reino, mil vezes eu me enganei!

Tomando o caminho errado, errando quando acertei!

Chegava ao cair da tarde, e eu quase sem dormir,

buscando este certo reino e a lembrança dele a me perseguir!



Um filho de carpinteiro que veio de Nazaré,

mostrou-se tão verdadeiro, pôs vida na minha fé

Falava de um novo reino, de flores e de pardais,

de gente arrastando a rede, que eu tive sede da sua paz!



O filho de carpinteiro falava de um mundo irmão;

De um Pai que era companheiro de amor e libertação

Lançou-me um olhar profundo, gelando o meu coração;

Depois me falou do mundo, e me deu o selo da vocação!



Agora quem me conhece, pergunta se eu encontrei

o reino que eu procurava, se é tudo o que eu desejei

E eu digo pensando nele: no meio de vós está

o reino que andais buscando, e quem tem amor compreenderá!



Jesus me ensinou de novo, as coisas que eu aprendi,

por isso eu amei meu povo e o Livro da Vida eu li

E em cada menina moça, em cada moço rapaz,

eu sonho que a minha gente será semente de eterna paz!


[i] Casado, pai de duas filhas, formado em Direito, Especialista em Direitos Humanos, membro do Grupo de Oração NS de Fátima, Santa Fé do Sul, e da Equipe da Campanha da Fraternidade da Diocese de Jales/SP.

[ii] http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_07121990_redemptoris-missio.html . Acesso em 08/11/2020. Convido os grupos de profissionais a aprofundarem o estudo desse capítulo em seus encontros.

[iii] Idem, ibidem.

[iv] http://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20131124_evangelii-gaudium.html#N%C3%A3o_ao_mundanismo_espiritual . Acesso em 11/11/2020

[v] http://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html#_ftnref138 Acesso em 11/11/2020

[vi] Mensagem da CNBB sobre as eleições municipais: https://www.cnbb.org.br/eleicoes-2020-cnbb-mensagem/ Acesso em 11/11/2020

[vii] Cartilha disponibilizada pela CNBB: https://www.cnbb.org.br/wp-content/uploads/2020/09/CARTILHA-JMP-2020-sumario.pdf Acesso em 11/11/2020

[viii] Cartilha disponível em https://www.cnlb.org.br/?wpfb_dl=90

[ix] http://www.vatican.va/content/john-paul-ii/pt/encyclicals/documents/hf_jp-ii_enc_07121990_redemptoris-missio.html Acesso em 11/11/2020

[x] Idem, ibidem.

[xi] https://www.letras.mus.br/padre-zezinho/248697/ Acesso em 11/11/2020.

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